terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A prática do Dízimo na Igreja - Origem



Embora as tradições judaicas impusessem a Israel a prática do dízimo, entre os cristãos dos primeiros séculos prevalecia a consciência de que o Evangelho havia levado à consumação as obrigações rituais e disciplinares da Lei de Moisés, colocando o definitivo em lugar do provisório.
Os pastores da igreja primitiva, portanto, não determinavam ao povo o pagamento do dízimo.
Todavia, a antiga literatura cristã registra exortações dirigidas pelas autoridades eclesiásticas ao fiéis, no sentido de oferecerem algo de seus haveres ou das primícias de suas colheitas aos ministros do Senhor e aos irmãos necessitados, a fim de os sustentar. Tais doações seriam espontâneas na fraternidade de Cristo e não em pesares previamente determinados.
Um dos principais testemunhos a respeito é o da Didaqué (60/90 d.C): “Todo verdadeiro profeta que quer estabelecer-se entre vós, é digno de seu alimento… Por isso tomarás primícias de todos os produtos da vindima e da eira dos bois e das ovelhas e darás aos profetas, pois estes são os vossos grandes sacerdotes. Se, porém, não tiverdes profetas, dai-o aos pobres…
Do mesmo modo, abrindo uma bilha de vinho ou de óleo, toma as primícias e dá-as aos profetas.
E toma as primícias do dinheiro, das vestes e de todas as pessoas e, segundo o teu juízo, dá-as conforme a lei
”. (c. XIII).
Note-se que no texto assim transcrito se trata de primícias e não de dízimo.
São Irineu (130-202 d.C) considerava o dízimo abolido; em seu lugar teria entrado o conselho evangélico de dar os bens aos pobres ( Adversus Haereses IV 13,3).
Outro documento importante, de normas eclesiásticas, a Didascália (250/300 d.C) , diz: “Reconhece ao bispo o direito de se alimentar do que a Igreja recebe, como faziam os levitas do Antigo Testamento, desde que o bispo tome o cuidado de prover a necessidade dos diáconos, das viúvas, dos órfãos, dos indigentes, dos estrangeiros” .
Todavia, dirigindo-se aos fiéis, o mesmo texto diz: “O Senhor vos libertou… para não estardes mais presos aos sacrifícios, às oferendas… e também aos dízimos, às primícias, às oblações, aos dons e aos presentes; outrora era absolutamente necessário dar essas coisas. Mas já não estais obrigados por tais determinações. Por isto, na medida em que o puderdes, terás o cuidado de dar”.
Como se vê, este texto tenciona ressalvar, de um lado, a liberdade dos cristãos em relação à Lei de Moisés e, de outro lado, a obrigação de justiça e caridade que lhes incumbe em relação aos ministros e ao próximo.
Descendo no decorrer do tempo, vai-se notando maior rigor nas exortações feitas em favor das contribuições dos fiéis.
Em 380, as Constituições Apostólicas, compiladas na Síria, mencionam o pagamento do dízimo (em seu sentido geral, provavelmente). Este era entregue ao bispo, o qual se encarregava da justa distribuição: serviria aos ministros do culto e aos irmãos indigentes.
A prática de contribuir para cobrir as necessidades da Igreja ia se difundindo no Ocidente. Havia, porém, exceções da parte dos contribuintes.
Em vista disto, os Concílios Católicos foram intervindo nesta circunstância. O Sínodo Regional de Tours (Gália), em 567, promulgou, por exemplo, a seguinte determinação: “ Instantemente exortamos os fiéis a que, seguindo o exemplo de Abraão, não hesitem em dar a Deus a décima parte de tudo aquilo que possuam, a fim de que não venha a cair na miséria aquele que, por ganância, se recuse a dar pequenas oferendas… Por conseguinte, se alguém quer chegar ao seio de Abraão, não contradiga o exemplo do Patriarca, e ofereça a sua esmola, preparando-se para reinar com Cristo”.
Esta é a primeira recomendação de dízimo feita pelos bispos, já não como pregadores ou doutores, mas como legisladores do princípios católicos. Contudo, note-se que não impuseram sanção aos transgressores. A justificativa apresentada pelo referido Concílio de Tours em favor dos dízimos, era a necessidade de expiar os pecados da população, sobre a qual pesavam guerras e calamidades.
Mais um passo foi dado no Concílio de Macon (Gália), em 585, determinando a excomunhão a quem se negasse a pagar sua contribuição (dízimos e ofertas) à comunidade eclesial. O dever moral torna-se também obrigação jurídica. A evolução se explica através das difíceis condições em que se achava o povo cristão (clero e fiéis) na Europa do séc. VI: as invasões bárbaras, a queda do Império Romano havia acarretado o caos e a insegurança entre as populações. Daí a necessidade de que os bispos exortassem com mais intensidade aos fiéis às contribuições.
A legislação das diversas províncias eclesiásticas nos séculos subseqüentes repetiu várias vezes a determinação do Concílio de Macon.
Dois séculos mais tarde, o poder cívil passou a apoiar a cobrança do dízimo, sob um edito do rei Carlos Magno (747-814), o que antes era apenas legislação eclesiástica, agora passava a ser uma sanção cívil. Com efeito, a lei capitular dita “de Heristal”, em 779, manda aos cidadãos franceses pagar o dízimo à Igreja, ficando o bispo encarregado de o administrar; os contraventores sofreriam a sanção imposta aos infratores das leis civis, ou seja, provavelmente a multa de 60 soldos.
Nos séculos seguintes, encontram-se numerosos documentos eclesiásticos e civis das diversas regiões da Europa que visam regulamentar a cobrança dos dízimos.
No século XVIII, o dízimo já havia caído no total desagrado dos fiéis cristãos. Com efeito, destinado a atender as paróquias e ao seu clero, os dízimos, em sua maior parte, iam beneficiar o alto clero e instituições estranhas ao serviço paroquial. Os grandes arrecadadores de dízimos eram prósperos (havia bispos e prelados diversos comandatários, ou seja, leigos que traziam títulos eclesiásticos quase exclusivamente para se beneficiar dos rendimentos respectivos), enquanto um grande número de presbíteros recebiam insuficientemente . Em suma, as quantias arrecadadas nos dízimos, não eram devidamente aplicadas aos fins estipulados, como o sustento as viúvas, órfãos e necessitados em geral ( Deuteronômio 26.12).
Voltaire(1694-1778) e outros filósofos pretendiam demonstrar que o dízimo não era mais necessário. Os magistrados, o baixo clero e os agricultores não suportavam mais pagar o imposto. Em conseqüência, inúmeros documentos foram enviados ao parlamento francês, pedindo ou a reforma ou a supressão dos dízimos.
A Assembléia Constituinte de França resolveu finalmente extinguir esse uso. Na noite de 4 de agosto de 1789, os deputados do clero renunciaram aos seus privilégios e, em particular, aos dízimos. Aos 21 de setembro de 1789, o rei Luis XVI (1754-1793) promulgou o decreto que declarava extinta o pagamento dos dízimos.
A nova legislação francesa estendeu-se às demais nações européias, de sorte que até 1848 foi abolida em todo o continente europeu, a cobrança dos dízimos; ficou apenas uma pequena porção da Itália sujeita a esse regime, até 1887.
Enquanto no Brasil, inicialmente, no tempo de colônia e Império, vigorava a contribuição do dízimo, cobrado e em parte administrado pelo Estado, então oficialmente unido à Igreja Católica. Quando do advento da República se deu a separação de Igreja e Estado (1889), viu-se a Igreja privada dos recursos materiais ordinários para o cumprimento de sua missão evangelizadora. Daí ter tomado maior vulto e importância o processo que, de modo geral, até hoje vigora, de se exigirem dos fiéis, por ocasião dos serviços religiosos e contribuições determinadas.

Conclusão

O dízimo não fazia parte da doutrina da igreja primitiva. Antes os próprios pais apologistas condenavam a prática, sob o argumento de o povo de Deus estar livre do jugo da Lei. Consequentemente, cada um ofertava à Igreja e aos necessitados conforme podia e de maneira voluntária, na mesma razão o qual o apóstolo Paulo pregava ( 2 Coríntios 9.7).
O dízimo somente passou a virar doutrina e obrigação no universo cristão a partir do Concílio de Macon, em 585. Determinação essa que veio influenciar a outras denominações cristãs posteriormente. E mesmo assim, o dízimo no cristianismo nunca foi exercido na sua finalidade integral, que seria auxiliar os ministros de Deus e os necessitados. Antes o imposto eclesial tornou-se apenas a mais importante arrecadação aos cofres das igrejas, para o sustento, principalmente, do alto clero.
Semente da Renovação
Bibliografia:
Excertos transcritos do Documento 8 – Estudos da CNBB
Adversus Haereses IV
Didascália
Didaqué

Wikipédia
scribd.com
aramaico.wordpress.com
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14 comentários:

renovacao disse...

Que bom ver um dos meus posts criarem tamanha repercussão na web!

Link: http://sareptanet.com/renovacao/?p=1409

Michele Epifanio disse...

Apócrifos usados para fundamentar a tese???

E que garantia temos que o autor do apócrifo dizia o que realmente vinha da vontade do Senhor, bem como aquilo que o Espírito Santo havia passado aos discípulos? Afinal, não vemos em nenhum momento, nenhum livro canonizado dizendo para as primicias serem entregues diretamente aos pobres!

Entendamos que se estamos em um lugar onde não há profeta, logo não haverá igreja! FATO!

Se usarmos os livros que compreendem à Biblia protestante, não conseguiremos fazer tal afirmação qual esse texto se propõe!

Thiago Lima disse...

Michele Epifanio, seu comentário contém um grau elevadíssimo de evangeliquês e estupidez.
Daria até pra fazer outro texto baseado na quantidade de besteira dita por sua pessoa.
1- O texto em questão não é pra defender nenhuma tese, tendo em vista que todos os documentos citados aí são seguramente aceitos por arqueólogos e historiadores.
Vou desenhar pra vc: Sabe pq não posso negar sua existência?
Pq existe um registro em cartório que prova que vc existe. Esse registro é um documento legal.
Assim como os documentos citados no texto.
E seria mega difícil cobrar a canonicidade da maioria destes, uma vez que foram escritos séculos dpois das cartas escritas no século I.
2- Não existe "bíblia protestante".
Quem canonizou os livros que compreende o Novo Testamento foram os católicos no Concílio de Roma no ano 382 da era cristã.
Os discípulos nunca escreveram uma linha imaginando ou pretencionando que suas palavras se tornassem futuramente uma doutrina a ser vivida e compreendida.
Eles rejeitariam abertamente a ideia da bíblia ser chamada de "Palavra de Deus" e toda essa bibliolatria que permeia o coração dos crentes.
Outra, a bíblia é uma fonte tão segura pra se afirmar alguma coisa que suas traduções e traduções revelam diversas reedições durante a história com textos acrescentados e retirados até por volta do século XII.
Então, qualquer outra pessoa que não fosse cega por uma religião aceitaria um fato histórico sem questionamentos, tendo em vista que é um fato. Preciso desenhar novamente o pq não posso negar sua existência?
3- Apócrifo é um termo usado por São Jerônimo que viveu entre os séculos III e IV da era cristã.
Tão somente remete aquilo que não foi canonizado, ou que não foi considerado sagrado.
Já te falei de quem considerou os textos sagrados e não sagrados, né?
Preciso repetir novamente pra vc que foram os católicos?
Preciso acrescentar que o processo de canonicidade se deu por vias partidaristas? Politicagem pura?
Vcs aceitam tanto o dízimo como dinheiro que nem se dão conta de onde vem a história do dízimo ter virado dinheiro.
Pois eu explico pra vc, já que seu pastor não vai ter coragem de dizer a verdade, se é que ele ao menos saiba disso.
O Talmude, que é um apócrifo dos judeus.
Livro de interpretações rabínicas.
Ta na bíblia?
Não.
Sabe pq ta no TAlmude?
Pq um rabino judeu que inspirou diversos pastores resolveu que dinheiro era melhor que comida.
4- Auxílio aos pobres era a principal advertência aos cristãos (Gálatas 2:10).
O dízimo na comunidade judaica tbm tinha como finalidade garantir o sustento dos necessitados.
Daí, dar parte do dízimo aos pobres, viúvas, estrangeiros e qualquer outro necessitado.
Se vc lesse alguma coisa além do surrado texto de MAlaquias 3:10, vc entenderia ao menos 10% [rsrs] do assunto. Leia Deuteronomio 14:28 e 29.
Espero ter ajudado!

Anônimo disse...

DÍZIMO x OFERTAS VOLUNTÁRIAS
O dízimo é ordenança do Velho Testamento/a Lei, porem Cristo veio para acabar com a lei. II Coríntios 3.14
Na Graça vale apenas contribuições voluntárias: I Coríntios 16.2 - II Cor. 9.7
O pastor deve ter um trabalho de dia e pregar a noite para prover seu próprio sustento I Tess. 2.9 e não ser pesado à irmandade da Igreja: II Cor. 11.8.
Chega de sustentar o LUXO de pastores, falsos apóstolos, bispas, pastoras, missionários (as), os filhos (as), netos e netas dos mesmos, este estelionato passa de geração em geração.
Carrões, helicópteros, jatinhos, aviões, iates, lanchas, mansões, casas de praias, fazendas, viagens internacionais, casas de campo, gravadoras, editoras, rádios, TV, roupas de luxo, relógios de luxo, etc.....
Não existe em todo o novo Testamento ordenança para dar dízimo. A ganância faz com que todo pastor Evangélico queira tornar-se muito rico pelo sangue das Ovelhas pelo suor dos Inocentes. Tosquiando-as continuamente. Se não houvesse dinheiro, será que existiria Pastor????????
Estamos alertando toda a irmandade, para lerem mais o novo testamento e ficarem em alerta, com o seguinte vers. : “O ladrão veio para roubar, matar e destruir” , o ladrão é o falso pastor (II Cor. 11 - 13, 14)
“Não dê dizimo, faça um pastor trabalhar”
WWW.NAODEDIZIMO.COM.BR

Associação da Irmandade da Igreja Presidente

Thiago Lima disse...

Muito bom o post acima.

Jose disse...

Gostei e concordo plenamento com o sr. Anônimo o dízimo nunca foi uma ordenância no NT, pelo contrário todas as vezes que Jesus falou sobre dízimo foi para chacoterar da hipócrisia do Fariseus, Jesus deu belos exemplos, cumpriu a constituição do país onde vivia pagou tributos, houve um dia que não tendo dinheiro ordenou a Pedro que pescasse um peixe e da boca do mesmo retirasse um estater "Real ou Dolar" de nossos dias e pagasse o devido tributo, Mt 17:27 e de maneira nenhuma ordenou que primeiro pagasse o dízimo, se esta passagem fosse nos dias atuais o Mestre Jesus teria sido taxado de ladrão pelo crime organizado.

Anônimo disse...

ENGANAR AS PESSOAS EM NOME DE JESUS:É com tristeza que vejo muitos pregadores desonestos, enganando as pessoas em nome de JESUS. É muita gente safada, visando apenas dinheiro, mais dinheiro, falando o nome de JESUS. Você para alcançar ou ser atendido por DEUS, não precisa pagar ou dar dinheiro pra ninguem, é só fazer o pedido com fé. Agradeça quando for atendido. Podendo, ajude sim.É importante participar e ajudar as pessoas. Existem muitas instituíções religiosas sérias, procure obter informações,antes de se tornar membro de alguma delas.

Monsueto Araujo de Castro disse...

ENGANAR AS PESSOAS EM NOME DE JESUS:É com tristeza que vejo muitos pregadores desonestos, enganando as pessoas em nome de JESUS. É muita gente safada, visando apenas dinheiro, mais dinheiro, falando o nome de JESUS. Você para alcançar ou ser atendido por DEUS, não precisa pagar ou dar dinheiro pra ninguem, é só fazer o pedido com fé. Agradeça quando for atendido. Podendo, ajude sim.É importante participar e ajudar as pessoas. Existem muitas instituíções religiosas sérias, procure obter informações,antes de se tornar membro de alguma delas.
Monsueto Araujo de Castro

ricardo disse...

concordo com que esplanaste.cada um de que manda seu coração,e o que ele manda é pedido de Deus(sempre para o bem)dizimo ñ é para fazer templos ricos e pastores ricos e que seus ajudantes se achem os bons da igreja,que estão com vaga garantida no céu tem que fazer para merecer.cristo ñ usava roupas finas para se destacar entre os menbros que o seguiam.é oque esta escrito ou não?

ricardo disse...

boa tarde Tigo falaste o que eu queria dizer pouco estudo faltou-me vocabulario e conhecimento suficiente da palavra.bibliolatria é isto mesmo.obrigado fica com Deus

Anônimo disse...

Caracas, Mineiro.... Muito bom!
Mas é uma tarefa dificil conscientizar os crentes de que há algo mais além de Malaquias 3.10.


Menina Chata

Michele disse...

Thiago...

Muito provavelmente é um adolescente.

Bem sei,porque tenta ser agressivo e arrogante para tentar impôr respeito.

Muita coisa que disse, é verdade! Outras, BALELA!

Mas quando você crescer, e aprender discutir somente, sem querer impor, aquilo que leu como verdade absoluta. Terei prazer em discutir contigo.

Quanto aos apócrifos... Saiba mais sobre eles! Seu conhecimento é muito medíocre!

Thiago Lima disse...

Srta Michele, adoraria q vc citasse quais falas minhas são balelas e PROVASSE.
Quanto a minha idade e temperamento, eles ñao estão em discussão no texto e nem estarão.
Assim sou e não tenho a pretensão de agradar ou desagradar ninguém, se eu tivesse, provavelmente já teria me frustrado.
Mas então, algum comentário a acrescentar ou refutar O TEXTO?

edson granato disse...

hebreus 7:5 E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem,segundo a lei, de tomar dízimo do povo, isto é, de seus irmãos ,ainda que tenha saído dos lombos de Abraão . Aqui não vemos os pastores receberem ordem de tomar dízimos . Galatas 3:10 todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição ,porque está escrito: maldito todo aquele que não permanecer em todos as coisas escritas no livro da lei ,para fazê-las .